Óstracos

Na Grécia da antiguidade, os cidadãos votados ao ostracismo viam os seus nomes inscritos em pequenos cacos de barro, uma espécie de objectos-prodígio que asseguravam a passagem categórica de ser a não-ser perante a comunidade, as suas regras e as suas instituições reconhecidas.

A partir desses objectos, e dos gestos de organização social que lhe deram origem, Carlos No criou uma obra, e uma exposição, decorrendo de uma residência artística feita em Tondela. Tirando partido do barro negro de Molelos, a exposição conta com a colaboração de gente do concelho de Tondela, através de um workshop onde os participantes, entre eles os alunos de artes do Agrupamento de Escolas Tomás Ribeiro e da Universidade Sénior do Rotary Club de Tondela, foram chamados a criar os seus próprios óstracos em cacos de barro.

O trabalho de Carlos No tem reflectido sobre os conceitos de fronteira, margem e exclusão, sempre numa perspectiva de contextualização relativamente à contemporaneidade e aos modos socialmente dissimulados ou violentamente explícitos como esses conceitos ganham forma e corpo nos quotidianos de diferentes pessoas. A noção de fronteira implica divisão, linha que parte e impede ou condiciona trocas, contactos e passagens, três modos comunicantes nos quais assenta a natureza humana. Margens só existem a partir de uma ideia de centro, e não é difícil perceber que as primeiras se imaginam como subalternas do segundo. Exclusão é o resultado inevitável desta conformação do mundo a conceitos rígidos de uma arrumação social (portanto, também económica, política, sexual, cultural, etc.) que se quer manter a todo o custo. Perceber quem quer manter e de que mecanismos se serve para o conseguir é parte considerável da leitura que podemos fazer do mundo.

Esta obra pretende assim, através de uma referência directa relacionada com o passado histórico e político europeu, aludir a uma situação contemporânea quase semelhante à que acima foi referida onde, quase de igual modo, assistimos actualmente a determinadas instituições políticas europeias a votar o número de pessoas que devem ter acesso ao Espaço Schengen, e ao seu país em particular.

Não se esconde, portanto, a alusão a uma situação presente que está relacionada com o fluxo massivo de migrantes que diariamente procuram ter acesso a este espaço geo-político-económico, que é a União Europeia, onde pessoas que teoricamente “não pertencem”a este espaço territorial são impedidas de o fazer, de diversas formas, mas apenas por um simples motivo: o de não serem desejados entre nós, “cidadãos europeus”, segundo teorias segregacionistas por elas mesmas inventadas.

À semelhança do que sucedia na antiga pólis grega, onde os cidadãos não desejados eram excluídos da sociedade e enviados para o degredo, parece, infelizmente, que chegou agora a vez de ser uma boa parte da Europa a procurar punir de igual forma todos os migrantes que não são aqui desejados, devendo por isso ser banidos deste espaço/território quando não são, antes disso mesmo, impedidos de nele entrarem.

Sara Figueiredo Costa
Lisboa, novembro 2015