Other works - Ostracos

ÓSTRACOS

Na Grécia da antiguidade, os cidadãos votados ao ostracismo viam os seus nomes inscritos em pequenos cacos de barro, uma espécie de objectos-prodígio que asseguravam a passagem categórica de ser a não-ser perante a comunidade, as suas regras e as suas instituições reconhecidas.

A partir desses objectos, e dos gestos de organização social que lhe deram origem, Carlos No cria uma exposição que se apresenta nesta 21ª edição do Finta, decorrendo de uma residência artística feita em Tondela. Tirando partido do barro negro de Molelos, a exposição conta com a colaboração de gente do concelho de Tondela, através de um workshop onde os participantes, entre eles os alunos de artes do Agrupamento de Escolas Tomás Ribeiro e da Universidade Sénior do Rotary Club de Tondela, foram chamados a criar os seus próprios óstracos em cacos de barro.

O trabalho de Carlos No tem reflectido sobre os conceitos de fronteira, margem e exclusão, sempre numa perspectiva de contextualização relativamente à contemporaneidade e aos modos socialmente dissimulados ou violentamente explícitos como esses conceitos ganham forma e corpo nos quotidianos de diferentes pessoas. A noção de fronteira implica divisão, linha que parte e impede ou condiciona trocas, contactos e passagens, três modos comunicantes nos quais assenta a natureza humana. Margens só existem a partir de uma ideia de centro, e não é difícil perceber que as primeiras se imaginam como subalternas do segundo. Exclusão é o resultado inevitável desta conformação do mundo a conceitos rígidos de uma arrumação social (portanto, também económica, política, sexual, cultural, etc.) que se quer manter a todo o custo. Perceber quem quer manter e de que mecanismos se serve para o conseguir é parte considerável da leitura que podemos fazer do mundo.

Esta obra pretende assim, através de uma referência directa relacionada com o passado histórico e político europeu, aludira uma situação contemporânea quase semelhante à que acima foi referida onde, quase de igual modo, assistimos actualmente a determinadas instituições políticas europeias a votar o número de pessoas que devem ter acesso ao Espaço Schengen, e ao seu país em particular.

Não se esconde, portanto, a alusão a uma situação presente que está relacionada com o fluxo massivo de migrantes que diariamente procuram ter acesso a este espaço geo-político-económico, que é a União Europeia, onde pessoas que teoricamente “não pertencem”a este espaço territorial são impedidas de o fazer, de diversas formas, mas apenas por um simples motivo: o de não serem desejados entre nós, “cidadãos europeus”, segundo teorias segregacionistas por elas mesmas inventadas.

À semelhança do que sucedia na antiga pólis grega, onde os cidadãos não desejados eram excluídos da sociedade e enviados para o degredo, parece, infelizmente, que chegou agora a vez de ser uma boa parte da Europa a procurar punir de igual forma todos os migrantes que não são aqui desejados, devendo por isso ser banidos deste espaço/território quando não são, antes disso mesmo, impedidos de nele entrarem.

Sara Figueiredo Costa
Lisboa, novembro 2015